Mãe de Leite

A psicanálise e a Amamentação – I

Bianca Martins

Quem disser que Freud era contrário à amamentação está equivocado. Se for um psicanalista, precisa voltar e fazer direito o dever de casa. Não há qualquer referência na psicanálise freudiana, que trate da amamentação prolongada, tanto de seus benefícios quanto mais dos seus malefícios. Não, Freud não se ocupou disso. Outros depois dele sim. E todos os pós-freudianos que estudaram a relação mãe-bebê são unânimes: amamentar e nutrir suficientemente bem um bebê, é fundamental para seu desenvolvimento emocional.

O que sabemos muito bem, é que cada bebê atravessará fases do seu desenvolvimento psicoemocional e que a oralidade é inerente aos sujeitos. Portanto, um bom processo de amamentação e desmame é necessário para a estruturação psíquica dos seres humanos. Tanto para os bebês que iniciam sua exploração do mundo pela boca, quanto para as mães que, durante o processo, reeditarão e poderão elaborar as questões relacionadas a si mesma, uma vez que enquanto eram bebês, elas também foram nutridas e cuidadas por alguém e, nesse momento, também são cuidadas por seu entorno, elemento necessário para o próprio desenvolvimento enquanto mãe e mulher.

Em um texto nomeado “Uma cura pelo hipnotismo” (1892), o pai da psicanálise, nos ensina como tratou uma jovem puérpera com dificuldades em amamentar seus filhos. É uma belíssima aula de psicologia perinatal. Na minha opinião, esse é o texto que origina essa disciplina. O jovem médico, ainda se utilizava da hipnose como técnica de acesso ao inconsciente e tratamento dos sintomas orgânicos e emocionais da paciente. Essa técnica foi, anos mais tarde, abandonada em detrimento à associação livre, técnica que realmente funda a psicanálise.

Nesse artigo, Freud encontra essa jovem mãe que estava com dificuldades na amamentação de seu segundo filho. As queixas eram semelhantes à experiência com seu primeiro filho (que Freud não acompanhou), que por fim fora amamentado por uma ama-de-leite:  baixa produção de leite, dores quando o bebê mamava, perda do apetite, insônia. Nessa nova experiência, a família desejava evitar que o bebê fosse alimentado por outra pessoa que não a mãe. Qual puérpera não vivencia isso?

Freud, então, é convocado a “cuidar” dessa “histérique d`occasion” com êxito. A amamentação foi realizada com sucesso por 8 meses. No filho seguinte, os mesmos sintomas retornaram e mais uma vez o médico foi convocado à intervir. E, no momento em que editava esse precioso texto, Freud nos fez a seguinte referência: a de que o bebê estaria com 18 meses, fora amamentado pela mãe e gozava de boa saúde.

A pergunta que faço é: Por que amamentamos nossas crianças?

Amamentamos porque somos mamíferos, é nosso destino biológico. Amamentamos, porque é também uma forma de se relacionar, de manter nossa cria recém parida perto de nosso corpo e garantir que sobreviva.

Gostaria ainda de ressaltar, que nossa condição de ser vivo é também permeada pela cultura, pela sociedade, pelo momento em que vivemos. Toda amamentação é datada. Nossos ancestrais amamentavam, pois era a única possibilidade de fazer o bebê humano, que nasce prematuro, sobreviver. Cada mãe produz exatamente um tipo de leite adequado às necessidades nutricionais de seu filho. As mães amamentavam, porque os bebês não nascem sabendo mastigar, seu organismo não nasce preparado para outro alimento que não o leite materno; além de que naquele contexto havia escassez de alimento.

Então, sendo a mãe uma produtora de alimento, nada mais natural que ela mesma amamente o bebê. Até porque o senso comum, e mais tarde as ciências, descobriu que bebês amamentados por suas próprias mãe ,por um período de 2 anos, estavam mais propensos a sobreviver do que os que não eram amamentados. A mãe que amamenta passa a seguinte mensagem ao seu bebê: – Ei pequeno, você me interessa.  Essa condição é fundamental para que o bebê humano tenha motivos para sobreviver: ser cuidado e ter alguém que se interessa por ele.

Naturalmente, quando os bebê chegam ao 5º ou 6º mês, começam a eclodir os dentes e passam a se interessar por outros alimentos. Saem da posição deitada, para a posição sentada. Começam a conhecer o mundo e a se interessar por ele. Mais uma vez, é a pessoa quem cuida desse bebê que aos pouco vai apresentando esse mundo, das mais variadas formas, a alimentação é uma delas. E, a partir disso, uma nova discussão se abre: a amamentação e a introdução alimentar, cujo diálogo pode ser iniciado em um novo texto.

Leia mais sobre amamentação prolongada aqui: http://www.maedeleite.com.br/amamentacao-prolongada-um-direito-meu-que-a-sociedade-deve-respeitar-sem-opinar/

Leia a segunda parte do texto aqui: http://www.maedeleite.com.br/a-psicanalise-e-a-amamentacao-ii/

Bianca Martins é psicóloga, psicanalista. Atua há 13 anos em psicologia perinatal, parentalidade e intervenção precoce. Fundadora da Clínica Infans em Vitória, Espirito Santo. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.
Georgia Bianca Martins Pinha Buzatto
+55 (027) 98151-6903
geobianca@hotmail.com

 

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Comments

junho 22, 2017
[…] também se amamentar o filho ao seio pode interferir em sua sexualidade. Eu espero que sim. Todas as nossas peripécias sexuais derivam desse enamoramento dos pais por seus […]
junho 25, 2017
[…] Homossexualidade e amamentação, o que podemos aprender em termos de amor e respeito ao outro? […]

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