A psicanálise e a Amamentação

A psicanálise e a Amamentação – II

Bianca Martins

A mãe vai amamentado e desmamando seu filho, diariamente. A cada mamada, é promovido um pequeno desmame. Tudo é gradual. Quando há qualquer interferência brusca no processo, podem surgir os traumas. E o trauma é algo que nós psicanalistas estudamos muito. Um desmame traumático, do tipo deixar a criança na casa de outra pessoa por 3 dias, passar substâncias com sabor ruim na mama, entre tantas outras modalidades, são sem dúvida práticas a não serem utilizadas.

A mãe quando se sente pronta, irá conduzindo a si mesma e ao seu filho, por meio da palavra, ao desmame, um tempo de suficiência desse primeiro e exclusivo cuidado nutricional –  o mamar, e isso se dá para ambos. Para o bebê e para a mãe.

– Bem, diz a mãe, você já está grande, não precisa mais mamar, olha, já se interessa por outras coisas, já come comidinhas. Olha que delícia, hummm. – enfim, uma série de dizeres carinhosos, vão deslocando a atenção da mama da mãe e introduzindo aos poucos outras possibilidades nutricionais, provocando um primeiro descolamento do bebê de sua mãe.

Quando isso acontece? Depende de cada mãe. Cada maternidade é única e cada amamentação e desmame também. Tudo o que está direcionado a uma ortopedia do cuidado, ou seja, um modo de fazer único. As receitas prontas falharão. O psiquismo de mãe e bebê, na teoria psicanalítica, conversam o tempo todo, em atos, gestos, intenções, em não dizeres e, aos poucos, essa dupla vai encontrando novos modos de se relacionar.

A psicanálise, por conseguinte, ocupou-se em determinar as fases do desenvolvimento humano a partir da maturação biológica que, concomitantemente, levou à maturação psíquica. Os traumas surgem quando esses dois “senhores” são invadidos por agentes externos de maneira brusca.

Perguntaram-me sobre o que a psicanálise tem a dizer a respeito da amamentação prolongada, convido-os, portanto, a refletir atentamente sobre as seguintes informações:

Sabe-se que, aos 2 anos, a criança já se interessa pelo mundo. Ela já anda, já inicia a formação de frases, portanto, está se inserindo no mundo da linguagem. Abandona sua posição de infante – aquele que não fala, para aquele que fala. Nessa idade, naturalmente, há um distanciamento entre as demandas de sobrevivência dela – da criança – para com a mãe. Isto, para algumas família é o suficiente, para outras, ainda não.

Por exemplo, uma mãe que trabalha o dia inteiro e confia o bebê a uma creche ou a uma cuidadora, talvez precisem de mais tempo no processo de desmame, enfim, cada história é uma.  E ser nutrido pela mãe, acolhido em sua necessidade de aconchego e segurança é base para o desenvolvimento da sexualidade da criança. A partir do segundo ano, o pai entra com um outro elemento, é ele quem apresenta um mundo mais ampliado, e essa conexão é extremamente importante e estruturante para a personalidade da criança.

Perguntaram-me também se amamentar o filho ao seio pode interferir em sua sexualidade. Eu espero que sim. Todas as nossas peripécias sexuais derivam desse enamoramento dos pais por seus bebês.

Crianças que foram acolhidas, cuidadas, acarinhadas, que foram fonte de satisfação e júbilo para seus pais, certamente serão adultos que vivenciarão sua sexualidade de maneira mais satisfatória. Nos cuidados com o bebê, tudo é sexualidade. O contato do corpo a corpo, é sexualidade e afeto. Isso difere totalmente do coito genital, que é apenas uma das modalidades da prática sexual dos adultos. Digo isso, porque o coito genital deve ser resguardado apenas aos adultos e os bebês devem ser protegidos das vivências sexuais do casal.

Amamentar diminui a libido? Sim e não. Tanto para homens quanto para as mulheres. Os hormônios puerperais influenciarão muito, particularmente, cada mulher. Algumas, ao serem banhadas pelas exigências da maternidade, podem se deprimir e não estar libidinalmente acessíveis às práticas sexuais com o parceiro. Voltam-se totalmente aos bebês. Já outras, é justamente o contrário. Sentem-se poderosas com a maternidade e tornam-se mais disponíveis às trocas afetivas. Cada vivência é única.

Um bebê amamentado exclusivamente até os 6 meses é o que esperamos. Uma mãe que esteja preparada e disposta a amamentar seu bebê, é uma mulher que necessitará de muita ajuda, pois para amamentar é necessário ser também nutrida e cuidada. Se uma mulher deseja prolongar a amamentação e se o bebê topar, ok.  Vale ressaltar que também devemos observar o desenvolvimento do bebê e não impor uma amamentação forçada, então toda a família e a sociedade devem ajudar nessa empreitada. Afinal, tem que ser bacana para todos os envolvidos.

Se houver qualquer elemento que angustie ou que ponha em dúvida o desejo, a segurança ou a vontade da mulher na prática de amamentação, eu sugiro que busque um bom psicanalista, de preferência que tenha experiência com temáticas da perinatalidade e parentalidade. Afinal, a amamentação é um dos elementos constitutivos da maternidade, não o único.

Leia a primeira parte do texto aqui: https://www.maedeleite.com.br/a-psicanalise-e-a-amamentacao-i/

Bianca Martins é psicóloga, psicanalista. Atua há 13 anos em psicologia perinatal, parentalidade e intervenção precoce. Fundadora da Clínica Infans em Vitória, Espirito Santo. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.
Georgia Bianca Martins Pinha Buzatto
+55 (027) 98151-6903
geobianca@hotmail.com

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Comments

June 22, 2017
[…] Claete Brito Koch Casada e mãe de duas meninas que me ensinaram que amamentar é um ato aprendido e que a maternidade não é tão simples e nem tão acolhedora como desejamos, mas com certeza a melhor coisa que podia ter me acontecido. […]

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