Eu não sou uma "nazista de mamilos"

Eu não sou uma “nazista dos mamilos”, eu sou uma conselheira de amamentação

Meu papel é apoiar mulheres que querem amamentar, respeitando as que escolhem não fazê-lo. Porque são os seios delas.

Eu não sou uma "nazista de mamilos"
Mulheres são criticadas por amamentar em público, por oferecer leite materno no jardim de infância, por privar seus maridos de seus brinquedos. Imagem: Katie Collins.

O bebê dela tem nove dias quando ela liga. Com a voz engrossada por causa das lágrimas: “Ele perdeu peso, a parteira diz que eu tenho que lhe dar leite artificial.”

Eu ouvi esta frase inúmeras vezes. Eu tento responder com o máximo de complacência e cuidado possível. Eu não posso contrariar a enfermeira diretamente, mas eu preciso me empatizar: “você parece tão chateada,” eu digo. “Você quer usar leite artificial?”

“Não,” ela fala, com uma ênfase que sempre me surpreende. “Eu quero amamentar.”

Então conversamos. Eu pergunto sobre as dormidas do bebê, pra me assegurar do que está acontecendo. Nós conversamos sobre peso, uma perda de meras 20 gramas desde o nascimento está perfeitamente dentro do intervalo normal. Eu explico como o instinto de sugar do seu bebê e a retirada do leite estimula e produção e o fornecimento, e o efeito que a complementação com leite artificial pode ter. Nós falamos sobre o comportamento dele durante a amamentação, com choro, sono – imprevisível, irregular, e mesmo assim normal – e sobre que tipo de suporte está disponível. Juntas, nós identificamos idéias: contato pele a pele, cama compartilhada para facilitar a amamentação noturna quando seus níveis de prolactina estão mais altos, permitindo uma “sucção confortável” desde que ela esteja confortável em fazer isso pra aumentar o consumo de calorias pelo seu bebê.

“Eu me sinto honrada em ver uma mulher ganhar confiança em si mesmo.”

Uma semana depois, o bebê havia ganhado peso. Meses depois, o bebê continuava a crescer, sob amamentação exclusiva e fácil, e a autoconfiança da mulher havia aumentado consideravelmente. Como em qualquer outro caso, eu me sinto honrada em ver uma mulher ganhar confiança em si mesma.

A historia dela não é única: uma profissional da saúde apressada com um plano a cumprir, e uma recém-mãe que raramente viu um bebê mamando – é assim que, todos os dias, mães são apresentadas à maternidade. E isso pode resultar numa difícil introdução ao aleitamento materno.

Quase uma década atrás eu mesma estava nessa posição. Insegura, com medo, confusa. Acreditando, porque meu bebê chorava muito, que meu leite não era suficiente. Que eu não era suficiente.

Eu sou conselheira de amamentação há seis anos, e ainda assim os pais sempre me ensinam alguma coisa: mães com tecido glandular insuficiente; recipientes com leite envoltos em seu pescoço e tubos presos em seus mamilos; mulheres com síndrome do ovário policístico, explodindo com leite; pais cuidando de bebês com refluxo; bebês que choram incessantemente; bebês que não dormem.Mulheres sofrendo com mastite, abcessos, mamilos rachados, mamilos invertidos, cândida, reflexo de ejeção doloroso, pega difícil. Mulheres com depressão pós-parto. Fiquei maravilhada com mulheres amamentando gêmeos ou trigêmeos, amamentando em tandem um bebê e uma criança, amamentando filhos de amigos ou ordenhando leite para estranhos.

Mas na esmagadora maioria das vezes, eu passo tempo com mães pra garantir apoio emocional. Sendo a pessoa que pacientemente espera as lágrimas secarem, considera dias vestidas em pijama como o símbolo da libertação pessoal, e lembra que, em algum dias, amamentar é uma droga. Uma crença inabalável na autonomia corporal significa que meu papel é apoiar as mulheres que querem amamentar, e respeitar a escolha das que não querem. Eu levo informação atualizada, encorajamento e empatia. Não posso dizê-la o que fazer e, mais importante, eu não quero dizer. Porque é seu corpo. São seus seios.

Na Austrália, assim como na maioria dos países ocidentais, as taxas de amamentação são extremamente baixas. Nem 15% dos bebês australianos são exclusivamente amamentados até os recomendados seis meses, e estudos estimam que os custos do sistema nacional de saúde devido ao desmame precoce sejam de até $ 120 milhões por ano. A maioria das mulheres dizem terem desmamado antes do desejado. De acordo com a UNICEF, o aleitamento adequado tem o potencial de prevenir quase um milhão de mortes infantis no mundo todo.

E mesmo assim, defensores da amamentação são chamados de insistentes, acusados de pressionar mulheres vulneráveis. Chamados de “Nazistas dos Mamilos”, “Polícia dos Seios.” Artigos e comentários acusam defensores da amamentação de anti- feministas, por estimularem “guerras entre as mães”, ou os acusam de forçar seios goela abaixo de uma sociedade indisposta a compartilhar tal entusiasmo mamário.

Alguns defensores da amamentação não possuem tato? Certamente. A amamentação está sendo imposta aos pais? Algumas vezes, infelizmente, sim.Nosso sistema de saúde costuma delegar uma série de deveres arbitrários às mães e correr para atender o próximo.

Pais estão sobrecarregados de conselhos: técnicas e duração da amamentação, como o bebê deve se comportar e crescer. Nem todos os profissionais da saúde põe em prática as recomendações para a amamentação baseados nas evidências mais atuais, e as orientações podem ser inconsistentes de um especialista para o outro. A extração do leite estimula a produção do mesmo, e não obstante mulheres são constantemente orientadas a espaçar as mamadas, observar horários ou aplicativos em vez do próprio bebê. Um bebê demora pra se familiarizar com a amamentação e aprender a mamar adequadamente, e mesmo assim mulheres são regularmente orientadas, somente por precaução, a introduzir algum substituto, na forma de chupeta ou mamadeira, o que pode confundir o bebê. Mulheres são atacadas por amamentarem em público, por fazer pausas para amamentar no trabalho, por amamentar no jardim de infância, por privar os maridos de seus brinquedos.

“A maioria dos defensores da amamentação não estão preocupados se uma mulher não deseja amamentar”.

Então quando amamentar se torna difícil, é mais fácil culpar o corpo da mulher que uma sociedade que a desapontou.

A maioria dos defensores da amamentação não estão preocupados se uma mulher não deseja amamentar. Quando uma mulher toma uma decisão autônoma e informada de usar leite artificial, o poder é dela. Porque o fato de uma mulher sozinha tomar decisões sobre seu próprio corpo, neste mundo, é um fenômeno poderoso.

Mas eu me importo se ela escuta mentiras. Eu me importo se ela é machucada ou inundada por velhos mitos ainda prevalentes, herdados de décadas passadas quando os produtores de leite artificial podiam promover seus produtos como superiores e desmerecer profissionais da saúde, efetivamente eliminando seus principais competidores, os seios. Eu me importo quando ela é levada a acreditar que seu corpo é defeituoso ou inadequado, e apesar disso ela quer desesperadamente amamentar seu filho.

É de cortar o coração testemunhar a dor de uma mulher. Novas mães ficam com raiva, frustradas, devastadas. Mulheres são marginalizadas e abusadas. As feridas podem ser cicatrizes do passado do bebê, de suas próprias infâncias, de violência sexual.

Amamentar é mais que simplesmente fornecer leite. É um sistema biológico complexo e robusto, e ocupa a maior parte do tempo que a mãe passa com um bebê. Sentir que você surpreendentemente não pode fazê-lo, apesar de se sentir hormonal, emocional, e fisicamente preparada, pode destruir a alma.

O engajamento ativo no apoio às escolhas das mulheres nos deixa à mercê de rótulos dos mais variados tipos. Alguns rótulos de fato magoam, porém significam que defenderei uma mulher frente a uma sociedade que sistematicamente a desilude. Portanto, meu trabalho pode ser mal interpretado, posso ser xingada, porém seguirei protegendo e dando apoio às mulheres que amamentam.

 Porque não é sobre mim. É sobre ela.

Artigo originalmente publicado em: http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/mar/27/im-not-a-nipple-nazi-im-a-breastfeeding-counsellor.

Foto: Katie Collins.

 Tradução: Aline Banhara, mãe de dois e bióloga por profissão e paixão. Trabalha com traduções, deixando o mundo de lá e de cá mais perto.
Contato: banhara@gmail.com

 

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