A dor de ninguém ouvir o seu grito de dor 

Hospital:

Tudo começou ainda no hospital. No primeiro dia, ela chorava e ninguém me falava que isto também era normal… Ela ficava nervosa por não saber pegar o peito e eu chorava por não saber colocá-la no peito. E assim ficamos 5 (cinco) dias no hospital até a amamentação aparentemente estar estabelecida. O aparente tornou-se visível, ela não estava a pegar o peito devidamente e quando eu tentava, sem sucesso, acertar a pega e pedia ajuda, a enfermeira vinha e simplesmente a punha no peito sem mostrar-me como era o certo, não esclarecia absolutamente nada! O idioma (alemão) ainda era uma barreira, assim como o medo de minha filha tão pequena estar passando fome.

No segundo dia após o parto, minha filha ganhou um lindo “presente”: uma chupeta. Porque estava chorando demais. Eu, que até aquele momento, a única informação sobre amamentação que tinha era colocar o peito para fora e daria tudo certo, achei que o hospital estava agindo bem dando-lhe uma chupeta e assim seguimos mais um dia tentando amamentar com uma pega errada, mamilos fissurados, preocupação pela “falta” de leite e também por ainda não obter nenhuma ajuda concreta.

Ao terceiro dia, pela manhã, ela chorava como nunca. A enfermeira cansada e irritada com meus pedidos de ajuda para acertar a bendita pega, sugeriu que eu desse leite para ela, e eu aceitei achando que seria leite materno, de um banco de leite. Em segundos, ela chegou feliz, sorridente e radiante com uma mini mamadeira com leite na mão, ensinou-me com cuidado como dar a mamadeira e saiu me deixando ali, mais triste e mais arrasada do que antes… entretanto, meu consolo era saber que supostamente era leite materno.

Nesse mesmo dia, por volta das 12 (doze) horas, comecei a sentir a descida do leite, e sem estimulação correta, tive um ingurgitamento violento! Mais de 40° de febre que fazia-me tremer dos pés à cabeça! Quando procurei por ajuda, deram-me um Paracetamol e disseram-me para descansar, pois logo passaria. Duas horas depois, meu estado só piorou. Fui outra vez pedir ajuda… E neste momento, verdadeiramente viram meu estado. Novamente sem explicações, calma e cuidado, partiram para a suposta solução: apertar meu peito. Constataram o óbvio, o seio estava por completo como uma pedra, vermelho e muito quente. E sem nenhum pré-estímulo, orientação; colocaram-me para fazer ordenha. Sem massagem. Sem compressa. Sem consolo. Com todo esse contexto péssimo, meus hormônios mais ainda desequilibraram-se… e o leite não saiu. Nem sequer uma gota. A única coisa que eu sentia naquele momento era dor e frio.

A enfermeira não se contentando com meu sofrimento, não aceitou que sua técnica tinha falhado e começou a apertar meu peito como se apertava uma laranja seca. A cada vez que a bomba sugava, ela apertava na tentativa de que o leite saísse… Eu não sei dizer a vocês como eu aguentei, pois a única coisa em que eu pensava era que eu estava fazendo aquilo para o bem da minha filha. “Depois daquilo ela ia conseguir mamar”, pensei, e mesmo em meio aos gritos, eu me forçava a acreditar que aquele procedimento era correto. Depois de tentar em vão essa tortura e ver que o leite não iria sair, mandaram-me deitar novamente. Passado um tempo, chegou outra enfermeira, esta viu meu estado e, diferente das demais, deu-me compressas mornas, ensinou-me a fazer massagem e finalmente o leite começou a sair sem ajuda de bomba. Fizemos uma nova extração e depois de meia hora estava tudo melhorando, mas ainda com muita dor… não sei dizer se era por causa do ingurgitamento ou pela tortura de apertos desnecessários que recebi. Ao fim da extração, recebi compressas frias e tudo foi melhorando devagar.

No quarto dia, ainda com a pega errada… decidi deixar a mamadeira de lado, pois vi que eu tinha leite, e começamos a amamentação somente com LM, e assim seguimos, eu com muita dor e ela mamando em livre demanda e com pega errada. Eu com mamilos fissurados (leia-se. massacrados), mas seguia em frente.

Ao quinto dia, depois dos exames de rotina, ela recebeu alta. Estava super bem, peso na medida certa e eu… um trapo. Tentei um último pedido em vão de ajuda e a resposta foi: daqui a uma semana seus mamilos irão sarar, se não sarar, a senhora pode voltar aqui imediatamente.

Em casa:

Chegamos em casa. Papai estava lá o tempo inteiro nos ajudando, cuidando da gente e sendo o melhor pai do mundo. E mesmo com toda a minha dedicação, ela ainda chorava muito… e eu caí na besteira de comentar com minha mãe e com algumas “amigas” tal fato. Mesmo tendo acabado de mamar, a pequena já saía do peito mostrando querer mais. Logo, rapidamente, começaram a chover os palpites: “É fome!”. Ao contrário de tudo, seguimos por duas semanas com amamentação exclusiva, livre demanda e com a chupeta que ela ganhou no hospital. “Ela ficava calma”, pensava eu, porém infelizmente ela estava apenas aprendendo e reforçando a sua pega errada.

Duas semanas seguiram. Cólicas começaram a aparecer em nossa rotina, e sem saber o que fazer, levei-a ao médico, o qual imediatamente receitou-me um remédio. Não importou-se em verificar ou perguntar sobre a minha pega. Não perguntou como eu estava ou como estávamos com relação à amamentação. Voltei para casa com aquele remédio, sem saber ao certo se eu daria mesmo para ela.

Não tardou, chegou a hora da cólica, que era normalmente entre 23h e 03h da manhã. Ela ficava vermelha, se contorcia de dor e chorava sem parar. Colocava-a no peito e ela sugava com tanta força que meu mamilo ficava achatado e esbranquiçado, devido a então pega errada. Fazia massagem; colocava compressa morninha; enrolava-a, caminhava, cantava, fazia tudo e nada adiantava.

E em uma dessas noites que me desesperei, comprei uma bomba e caí na besteira de ver quanto leite eu produzia. Em meio a prantos, tanto dela como meu de me sentir incapaz de produzir leite para minha filha, comecei a internalizar o que todos falavam durante duas semanas e eu, mesmo estando disposta a não ouvir, chegou uma hora em que eu não aguentei e acreditei. Tirei o leite em meio àquele caos, choro meu e dela. Desespero e sono meu e dela também…. Míseros 30 ml saíram dos dois seios – que mesmo dentro dessas condições era leite suficiente para amamentá-la – bastava a pega estar correta! E ter alguém pra dizer que o estômago de um bebê recém-nascido é do tamanho de um estômago de um bebê recém-nascido, não de um adulto.

Logo, até então a carência de exatas informações, fez-me acreditar que ela precisava de muito mais leite para ficar calma e saciada.

Fiquei arrasada, como era esperado, ao me deparar com aquela quantidade de leite. Deitei e concluí que eu era a mulher mais incapaz desse mundo, incapaz de produzir o leite que minha filha precisava para se alimentar. Meu marido, diante de tal desespero, acalmou-me dizendo que nós receberíamos pela manhã a visita de uma Doula e ela me ajudaria nisso. Deitada, ouvindo-o feliz e esperançosa, acabei por adormecer acreditando nessa solução.

A Doula chegou às 8h da manhã. Eu estava “morta”. Havia dormido apenas 3 horas, tinha acabado de amamentar e ela, sem introdução, pediu-me para tirar leite com a bomba para ver como estava minha produção. Tal como o médico, não se preocupou em ver a pega, uma mamada e nem ao menos saber como foi minha noite de terror. Mediante aquela “pressão”, consegui tirar mais 30 ml dos dois seios. Ela concluiu minha sentença de incapaz com a seguinte frase: “É, realmente você não tem leite!”

(O leite tirado com a bomba – elétrica ou manual – nunca vai ser a quantidade real tirada pelo bebê).

Aquilo foi o suficiente para eu desabar ali mesmo em prantos. Falei que queria muito amamentar. Perguntei o que eu poderia fazer apara aumentar meu leite, o que eu precisava comer ou beber. E ela, muito friamente, falou que tudo isso era em vão, seria melhor entrar com fórmula, pois minha filha estava com um peso bom, mas corria o risco dela ficar magra e, com o tempo, ficar desnutrida por eu ter pouco leite.

Isto acabou com minha vida… comigo… e com tudo que eu acreditava! Ali, naquele exato momento, morreu a parte que eu mais tinha orgulho, a mulher confiante e determinada que eu era.

A Doula saiu. Mesmo aos prantos, pedi ao meu marido que ligasse para o hospital e pedisse ajuda. Ligamos e a reposta foi: “Não podemos ajudar nesse sentido, pois quem é responsável por isso é a Doula que faz a visita no pós parto, mas se o senhor quiser, dê o leite que ela bebeu aqui…” e ouvindo pelo viva voz, perguntei: “que leite? Era leite do banco de leite, não era?” Para acabar com o resto de esperança e vida de dentro de mim, a resposta foi: “Não, não temos banco de leite aqui, o leite que ela bebeu era fórmula, marca x.”

Eu não consegui mais falar… não consegui mais respirar… e por alguns segundos, senti não ocupar mais o meu corpo. Aquilo doeu tanto em mim que até hoje me pergunto como eu suportei…

O Socorro:

Então comecei a saga de procurar ajuda. Liguei para minha mãe aos prantos, falei tudo que tinha se passado e a resposta foi: “Não sei pra quê todo esse sofrimento, dê mamadeira se não tem leite! Eu não tinha leite e você tomou mamadeira e não morreu, está aí saudável até hoje.” A cada grito de pedido de ajuda que eu dava, era como se alguém me amordaçasse e me prendesse a cordas cada vez mais fortes e nós mais difíceis de desatar.

Comecei a buscar ajuda com as amigas que amamentavam e a resposta era sempre a mesma: se não tem leite, dê fórmula. Dentre essas, uma me marcou muito, pois amava essa amiga, ela sabia da importância da amamentação para mim e me falou sem nenhum sentimento: “o que não tem remédio, remediado está, dê mamadeira e pare de sofrer!”

Com tais discursos, aprendi que na verdade você tem que confiar em si mesmo. Acreditar na sua força, pois todos os portos que eu acreditava serem seguros, foram os que mais me fizeram naufragar…

Comecei a ler sobre o que fazer para aumentar o leite e nestas duas semanas após o parto, já havia incrivelmente voltado ao meu peso normal. Porém li que comendo e bebendo algumas coisas específicas, faria aumentar o leite, e assim comecei a comer e beber tudo que eu encontrava nessas listas por aí. Em poucas semanas, engordei 10 quilos! De pura ansiedade… pois nada que eu comia faria efeito.

Tive que me render à bendita fórmula. Tive que acreditar que aquele leite que eu não sabia a procedência, mas sabia dos perigos, era capaz de saciar a “fome” da minha filha. Não desistindo ainda, continuei na busca de tentar voltar à amamentação exclusiva. Durante 5 meses e meio fizemos amamentação mista. Quando eu a colocava no peito, as lágrimas já começavam a descer, pois sabia que logo ela ia parar de mamar e querer a facilidade da mamadeira. Durante esse tempo todo, a pega ainda estava errada, mas com minha insistência, o mamilo cicatrizou e acabou se acostumando àquela rotina de mamadas. Depois de 5 meses e meio de tentativas, ela recusou o peito e por mais que eu tentasse, ela mostrava-se repulsa ao peito.

Por anos carreguei a culpa de não ter procurado informação de qualidade…

1. Culpei-me por ter acreditado que era só “pôr o peito pra fora”.

2. Culpei-me por não saber que bicos artificiais atrapalham a amamentação.

3. Culpei-me por não acreditar na minha capacidade de produzir leite.

4. E me culpei-me por achar que tudo que fizeram comigo eram “procedimentos normais” a todas as mulheres.

Durante o tempo em que ela tomou mamadeira, eu evitava sair de casa, pois me sentia envergonhada quando as pessoas me perguntavam se ela mamava e eu tinha que responder que ela mamava e tomava mamadeira. Na minha cabeça, as pessoas não iriam entender, na verdade, poderiam julgar-me incapaz de amamentar minha própria filha. Mesmo dando mamadeira, após cada mamada, eu chorava… e apesar dos pesares, era um momento nosso, ficávamos aconchegadas e desfrutávamos desse momento que me doía, entretanto, ao mesmo tempo, fazia eu saber que era uma oportunidade única de mostrar a ela que mesmo não sendo capaz de produzir o “ouro branco”, eu era capaz de amá-la com todo o meu ser, com tudo o que posso.

E mesmo sem apoio, sem ajuda e sem nenhuma motivação, seguimos nossa árdua dupla jornada de tentativa de aleitamento e mamadeira.

O desfecho, a liberdade:

Quando a minha filha mais velha estava com 8 (oito) meses, descobri que Deus tinha me dado mais uma oportunidade de ser feliz: presenteou-me com a chegada da nossa segunda Ana, e foi aí que vi que tudo poderia ser diferente, e comecei a buscar informações sobre amamentação, descobrir tudo o que eu tinha feito errado para poder fazer diferente, era minha oportunidade de acreditar e reviver a mulher determinada e confiante que um dia mataram dentro de mim.

E assim comecei, busquei, estudei e a cada “chutinho” que ela me dava, sentia mais determinação de buscar informações para que com ela fosse diferente. Durante os noves meses me empoderei. Vi-me novamente como a mulher que eu desisti de ser, determinada, forte, mulher esta que desapareceu por ter ouvido em demasia que “não era capaz”. Mas devido à tanta pressão psicológica, deixei em casa, no fundo do armário onde só eu e meu cúmplice sabia que existia, um kit de mamadeiras e o nome do leite em pó para caso eu fracassasse novamente.

É muito difícil para uma mãe que passou pelo que eu passei voltar a acreditar nela e na força que ela tem quando se põe em risco a vida de um ser que depende totalmente de você, comprei e deixei escondidas, mas a meta era jamais usar.

E o grande dia chegou, ela nasceu, linda e faminta. Marcou seu território fazendo xixi em cima de mim, mas poucos minutos depois disse: “quero que ela mame o mais rápido possível.” E ela veio ao peito, sem esforço, sem drama e com uma pega exatamente perfeita. E foi ali que comecei a ver que tudo daria certo.

A pega foi perfeita de início, porém assim que ela errava, eu automaticamente corrigia com toda calma. Os mamilos tiveram pequenas fissuras, aquelas normais de quem está se acostumando à rotina, afinal ela mamava também em livre demanda.

Mas não satisfeita, a enfermeira veio feliz e saltitante oferecer uma chupeta, eu muito educadamente falei que não precisava, obviamente ela saiu desapontada…

Minha menina mamava com gosto as gotinhas de colostro, era calma e quando sentiu sua primeira cólica entrei em prantos, mas sabia que era cólica e não fome.

Ficamos aninhadas uma na outra, pedi ajuda à enfermeira e ela falou que não podia me ajudar que tinha outras mães para cuidar também. Virei-me e voltei para cama, chorei por não receber apoio, mas estava ciente de que minha filha não chorava de fome, o que me deixava tranquila e feliz.

No terceiro dia o leite desceu, não tivemos problemas, ela mamava que escorria pelo cantinho da boca e fomos para casa.

Com o passar dos dias e dos estudos, vi os resultados que eles trouxeram para mim, vi que desde a primeira vez, com a minha filha mais velha, eu tinha leite, eu só não tinha apoio, nem ninguém que ouvisse meus gritos de socorro, mas somente com minha segunda filha acreditei na minha capacidade de produzir leite para ela e para a irmã que tomava todos os dias no mínimo 100 ml do meu leite.

Passamos da fase da amamentação exclusiva com muita tranquilidade e seguimos em amamentação prolongada até hoje, sabendo que não temos uma data para parar, o que me faz muito feliz.

Portanto quando vi que seria possível amamentar; que eu tinha leite; que eu não era aquela mulher incapaz que queriam que eu acreditasse que eu era; tomei uma decisão primordial em minha vida, decidi que nenhuma mulher que estivesse perto de mim viveria o que eu precisei viver para acreditar na minha força e na minha capacidade de amamentar minhas filhas.

E foi nesse dia que o Mãe de Leite foi criado, no dia em que vi que dependia de mim, dependia do quanto eu acreditava na minha força. E foi assim que ele começou, no intuito de ajudar minhas amigas, que acabaram chamando mais amigas e hoje somos uma grande família. Mãe de Leite é um espaço feito de Mãe para Mãe, que tem como principal objetivo: fornecer incentivo à amamentação; informação de qualidade; apoio; empoderamento; aconselhamento materno no que diz respeito às mulheres no coletivo.

Foi com esse projeto que venci meu maior fantasma: a culpa de não ter amamentado. E também onde aprendi a me perdoar por não ter tido apoio e informação certa quando mais precisei. Foi com o Mãe de Leite que aprendi a ver que assim como eu, havia milhares de mulheres passando pela mesma fragilidade que eu passei, pela mesma pressão psicológica da família para se render à fórmula como único caminho e ver também como nós mulheres somos solitárias no puerpério.

Hoje sou uma pessoa completamente livre dessa culpa, e hoje luto para que todas as mulheres que buscam apoio o encontrem.

“Venci o medo e a culpa.” Fui doadora de leite materno e sou conselheira em aleitamento materno. Sou livre, feliz e Mãe de Leite com muito amor.