Aleitamento materno

Como se libertar da auto-acusação materna

Ser mãe é que nem jogar videogame. Quando você pensa que virou o jogo, vem uma fase mais difícil. Mesmo que você esteja jogando pela segunda vez.

„Essas vozes eu conheço“ – Como se libertar da auto-acusação materna

Semana passada, comemoramos seis meses que meu filho se juntou a nós e completou nossa família. Depois de um parto emocionante e uma bela lua de leite, a introdução alimentar de sólidos era o próximo passo. Apesar da OMS recomendar 6 meses exclusivos de aleitamento materno, sempre me deparo com aquela perguntinha: „E aí, já come?“ (segunda pergunta mais cretina depois do „E aí, já dorme a noite inteira?“). Não, ele ainda não come. Na verdade, ele não quis comer.

Esse foi o início da aventura, que tem dois protagonistas: eu e ele.

Semana passada. Local: cozinha da minha casa.

Eu: Putz, introdução alimentar. Então é isso, né? Meu bebê tá crescendo (buáááááá!!!). Vou cozinhar uma cenourinha orgânica, dar na mão dele e ele vai devorar e pedir mais, porque ele é um bebê curioso e saudável.

Ele: dormindo o sono dos justos. Acorda feliz. Pega a cenoura feliz. Amassa a cenoura feliz. Passa no babador feliz. Bota na boca…infeliz. Na verdade, não só infeliz. Parecia que eu tinha dado ácido, féu ou não sei o que pro garoto. Ânsia de vômito. Chora.

Eu: Caraca, o garoto não quer comer. Só me faltava essa. Vai ser um pesadelo essa introdução alimentar. Igual com a irmã dele. E eu ainda fui numa fazenda, comprar cenoura sem agrotóxico e ele rejeita minha comida. Que fracasso! Que mãe sou eu, que não consigo alimentar meu filho?!

Socorro!!!!

Respira fundo. Oooooooooommmmmmmmmmm.

Esse é um típico círculo vicioso que mães vivenciam de tempos em tempos. Pra falar a verdade, quase todos os dias. Alguma coisa não dá certo e eis o círculo vicioso entrando em ação. E ele normalmente termina em culpa e em um sentimento de insuficiência, de não ser capaz.

Posso te convidar para fazer uma experiência?

Esse é um modelo aplicado por nós, psicólogos, para que nossos pacientes tenham a possibilidade de se conhecer e observar. Aqui ele está simplificado – afinal, ser mãe não é doença psíquica, né?

Tente preencher esse modelo, que na verdade é um protocolo, da forma mais exata possível, pois quanto mais concreta sua resposta, melhor será sua auto-observação e com isso você poderá aprender a regular seus pensamentos e emoções de forma mais eficaz.

Ele te dará a oportunidade de perceber o que está acontecendo com você, exatamente nesse momento. O modelo se resume em 2 pontos: situação e reação, sendo que existem 4 tipos de reação (cognitiva, emocional, física e comportamental). Vou preencher o protocolo de auto-observação baseada numa introdução alimentar complexa.

Situação: tente descrever num piscar de olhos, ou seja, exatamente o momento que deu início ao círculo vicioso: „Estou sentada com meu filho na cozinha. Ele bota um pedaço de cenoura na boca, tem ânsia de vômito e chora.“

Reação cognitiva: o que veio a sua cabeça? Quais são seus pensamentos nesse momento? „Toda vez a mesma coisa. Você deve está fazendo algo de errado. Não é possível! Dá certo com todo mundo, por que não dá com você? E se eu não conseguir fazer BLW com meu filho? Ele realmente não tem a mãe que ele merece. Eu sou a pior mãe do mundo!“

Reação sentimental: o que sinto nesse momento? Quais são meus sentimentos? „Sentimento de impotência, angústia, tristeza, raiva de si mesmo“.

Reação fisiológica: o que meu corpo diz? Como ele se expressa? „Eu começo a chorar e sinto um aperto no coração“.

Reação comportamental: qual o output? Como me comporto? „Eu jogo a colher na mesa e me xingo de idiota“.

Em que isso vai me ajudar?

Muitas vezes, alguns desses níveis de reação não são conscientes, isso quer dizer que você nem se dá conta que você os está produzindo. Quantas vezes nos xingamos ou denegrimos e não temos consciência disso (nossa, você é burra, hein!)? Ou somos exigentes e perfeccionistas conosco e com o que fazemos (Como assim? Já fiz mil vezes e ainda não consigo fazer certo!)? E isso, de uma forma que nunca faríamos com nenhuma outra pessoa.

O primeiro passo para sair desse círculo vicioso, é se observar, pra então entender o que acontece com você em uma situação peculiar. O que acontece comigo quando meu filho não quer comer? O que acontece comigo, quando meu marido não faz algo do jeito que eu quero? Essa é a primeira lição.

Vamos lá?

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Comments

January 11, 2017
[…] Se você não leu, aqui está ele: Como se libertar da auto-acusação materna. […]

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