Foto de arquivo pessoal: As duas no aeroporto de Lisboa, esperando o voo para casa depois de rolarem pelo chão e antes do banho na pia e quase 27 horas de viagem.

Maternidade e os julgamentos

Ao ver a foto daquela mãe no aeroporto sozinha com o bebê no chão, eu me vi. Na minha maternidade, que é mais guiada pelo coração e pelo meu instinto, do que por qualquer outra coisa, vi que estou fora de um contexto e de uma métrica absoluta pregada por mães que não se colocam no lugar da outra.
 
Eu me vi e fiquei frustrada com a quantidade de julgamentos que aquela mulher recebeu, e sem sequer saber que sua foto está sendo exposta sem autorização. Podia ser eu ali naquela foto, podia ser você, que assim como eu, mora longe da família e viaja muito, que sempre passa horas a espera de um voo e sabe exatamente o que é estar dentro de um aeroporto e sozinha.

Da última vez que fui ao Brasil, fiquei 8 horas em Fortaleza, com duas crianças de 2 e 3 anos, um carrinho duplo (para gêmeos) e um carrinho de malas, com 4 malas. Pedi várias vezes ajuda, as pessoas me negaram, inclusive para por minhas malas da esteira no carrinho, tive que pagar um carregador do aeroporto.
 
Daqui até a casa da minha mãe, são 27 horas de viagem entre voo e conexão, e para não pirar, já deixei rolarem no chão, já dei banho na pia do banheiro passando calcinha molhada, já comeram coisas que nunca comem em casa, já perderam meu carrinho, já quase perdi voo por não dar conta de correr com as duas e já carreguei as duas no colo com uma mochila de 10 quilos nas costas. Já segurei por 10 horas seguidas a mais nova no colo, sem levantar e sem fazer xixi enquanto ela mordia meu peito a cada solavanco que o avião dava.
 
Também tive que empurrar o carrinho de malas e o carrinho delas ao mesmo tempo e poucas pessoas das quais eu eu pedi ajuda, me ajudaram. Até os policiais, da alfândega de Munique, me viraram as costas quando me viram passar com os carrinhos.
 
Ontem, me frustrei em ver que as mulheres querem ser valorizadas pela sociedade, mas elas mesmas massacram umas às outras, sem ao menos tentar entender o contexto de uma foto, a realidade de uma mulher que não foi divulgado se a criança passou 1 hora ou 1 minuto no chão, protegido por uma manta. Muitas delas nunca viajaram de avião e muito menos sozinhas, mas se sentiram no direito de julgar essa mãe e promover um verdadeiro xingamento coletivo, diante de uma atitude que para o resto do mundo é normal, por bebês no chão é normal, principalmente quando os dois estão cansados ou em uma viagem longa.
 
Mas ela deixou o bebê no chão para olhar o celular!!
Sim deixou, eu também já deixei!!
Para avisar que entre um voo e outro estávamos vivas, que nosso voo atrasou, que o avião não sumiu do mapa e que as crianças estavam bem, avisar que sumiram com o nosso carrinho, com nossas malas e para pedir uma solução, para avisar o marido que o cartão de crédito ficou em cima da mesa, ou apenas para descansar, para o bebê se esticar, por que o bebê prefere o chão ou por que está todo cagado e o pai foi comprar uma fralda nova e eu avisava o tamanho certo que ele precisava comprar.
São tantos motivos, que as vezes me pergunto que tipo de maternidade as pessoas vivem e que tipo de maternidade querem que as outras vivam. A bendita métrica que todos devem seguir para ser considerados bons e perfeitos. (apesar de não existir ninguém perfeito)
 
Enquanto a gente, mães e mulheres, estivermos preocupadas em enquadrar umas as outras nessa maternidade perfeita, jamais teremos o respeito que a gente tanto quer da sociedade, o respeito tem que ser aprendido em casa, e se eu não respeito uma mãe como eu, como vou querer que a sociedade respeite?
 
Julgar uma mãe, sempre será mais fácil que oferecer ajuda. Sempre mesmo, e essa moça da foto tirada indevidamente, está aí para provar que julgamentos brotam onde deveria ter empatia.
Tem ajuda/acolhimento/entendimento para as mães? Não!!
Tem julgamento? Tem sim, e sobrando.
E o pior de tudo é que esses julgamentos são feitos pelas mulheres que deviam estar se ajudando. Deveriam está em sororidade e empatizando com essa mãe.
Será que a pessoa que tirou a foto perguntou se ela precisava de ajuda? Se ela estava cansada? Se o voo dela estava atrasado? Se ela estava com fome?
Será que você que está julgando essa mãe, teria coragem de perguntar se ela precisa de ajuda?
Será que se fosse você, você acharia o mesmo absurdo, vamos parar de olhar para o nosso umbigo e julgar a outra? TODAS nós passamos por limitações! Ninguém está isento de um perrengue!
Vamos para de rotular as pessoas? De tentar enquadrar todos e quem não se enquadra nesse padrão super rígido, fazemos o que?
Foto de arquivo pessoal:
As duas no aeroporto de Lisboa, esperando o voo para casa, depois de rolarem pelo chão, antes do banho na pia e quase 27 horas de viagem.

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