Por que entendemos tão pouco de amamentação

Por que entendemos tão pouco de amamentação?

Até o momento você provavelmente já ouviu que amamentar é bom. Mulheres ouvem o mantra “peito é melhor” praticamente desde a concepção – tanto a Organização Mundial de Saúde quanto a Academia Americana de Pediatria recomendam amamentação exclusiva por seis meses. Com este tipo de endosso, que exige um gigantesco compromisso com o qual qualquer mãe que amamenta concorda, você imaginaria que sabemos absolutamente tudo sobre esta prática.

Na realidade não sabemos. E não estamos nem perto disso.
Amamentar é, talvez, a mais antiga atividade humana sobre a qual menos sabemos. Cientistas sabem mais sobre o que há em um tomate do que sobre o leite materno, de acordo com Katie Hinde, uma pesquisadora em lactação e professora adjunta da Arizona State University. (E sabemos o dobro sobre disfunção erétil). Ainda precisamos descobrir a composição integral do leite materno, como ele é produzido e o que os bebês fazem com ele. A maior parte da pesquisa em lactação é nutricional, mas amamentar é uma função intrincada e complicada. A ciência pouco entende do tema, menos ainda médicos e enfermeiras que supostamente deveriam ajudar novas mães – que frequentemente estão sobrecarregadas pelas batalhas da amamentação e precisam defender-se sozinhas.

Oito a cada dez pais acreditam que os problemas de amamentação contribuem para a incidência da depressão pós-parto em recém-mães, de acordo com recente pesquisa. Não é surpresa, portanto que 60% das mulheres não atingem seus próprios objetivos na amamentação.
A ciência descobriu muito mais sobre as vantagens da amamentação para os bebês do que sobre seus benefícios e desafios para as mães. Estudos relacionaram amamentação à perda de peso no pós-parto, proteção contra câncer e, mais recentemente, prevenção ao diabetes tipo 2. Há recompensas hormonais, como os picos de ocitocina. Mas a produção de leite continua sendo um mistério – não há uma resposta clara sobre o porquê de algumas mulheres produzirem pouco leite e outras produzirem tanto a ponto de causar-lhes dor extrema. Não está claro quem está em mais risco para infecções relacionadas à amamentação, como bactérias super-resistentes, mastite ou candidíase. Remédios que elevam a produção de leite são imperfeitos e pouco prescritos. Mulheres com produção excessiva ainda recebem orientação de aplicar folhas de repolho e compressas quentes, ou ingerir suplementos fitoterápicos, como se estivessem em uma civilização antiga, não nos EUA em 2018. Se queremos entender a amamentação em sua complexidade e garantir o direito de amamentar às mulheres que assim desejam é importante que possamos responder a estas questões.

Nós sequer usamos a denominação correta para descrever o que acontece de fato durante uma mamada: a ação do bebê ao seio ainda é chamada de “sucção” porém, como explica a biomecanicista Katy Bowman, o que acontece ali é uma série de movimentos completos que incluem compressão e criação de vácuo. Quando um bebê extrai leite da mama, ele está moldando sua mandíbula, mordida e toda a musculatura facial, o que afeta a maneira como mastiga, respira e engole, diz Bowman.

Por que o ritmo frenético da tecnologia e descoberta científica deixou a amamentação para trás? A biologia da lactação não é novidade, surgindo no final do século XIX. Porém, as prioridades para financiamento de pesquisa hoje não estão ali. O gênero de grande parte dos legisladores que definem a alocação de recursos para pesquisas pode trazer luz a esta questão. “Somente posso atribuir isto ao fato de que as pessoas não percebem como necessidade”, Hinde disse-me. A existência da fórmula sugere que temos a receita para uma exata cópia do leite materno, mas não temos. Noel Mueller, professor assistente de Epidemiologia que estuda a composição do leite humano na Johns Hopkins School of Public Health diz, “A evidência ainda é confusa a respeito da possibilidade da fórmula ser um substituto para o leite humano e fornecer o mesmo tipo de nutrientes às crianças.”.

Talvez não seja muito importante para uma recém-mãe não encontrar um estudo medico detalhado a respeito do conteúdo do leite materno. Mas é muito importante se ela não consegue amamentar adequadamente seu bebê e a ciência não tem nada a lhe oferecer. A amamentação é tida como fácil, pois é “natural,” mas pode significar um trabalho de Sísifo para muitas mães devido a fatores como produção de leite, tamanho e formato de seio e mamilo, e habilidade do bebê em abocanhar o seio. A internet está repleta de histórias sobre problemas de amamentação e mensagens onde mães desesperadas buscam ajuda. Uma pediatra que relata ter passado horas aconselhando mães na amamentação, escreveu neste artigo (http://www.scarymommy.com/from-a-pediatrician-to-mothers-w…/) que esperava tirar de letra a amamentação quando tivesse seu próprio filho. A realidade foi bem diferente.

Amamentar requer um comprometimento físico, emocional e psicológico, mesmo para as mulheres para quem parece “fácil”. A pressão intensa para amamentar combinada a ausência de apoio pode colocar as mães em situações impossíveis; as dificuldades podem representar um assunto de vida ou morte para mulheres em depressão pós-parto, que afeta 1 a cada 7. E quando as mulheres lutam para amamentar, o sistema médico geralmente as deixa na mão.

É mais provável que o Sistema de saúde atrapalhe a amamentação do que promova. “A vasta maioria dos membros da equipe dos hospitais não consegue orientar satisfatoriamente a mulher na amamentação após o nascimento como muitas desejam, então elas acabam recebendo conselhos conflitantes ou nenhuma informação, diz Malika Shah, professora assistente na Northwestern University que especializou-se em medicina da amamentação.

Somente 23% dos nascimentos nos EUA acontecem em Hospitais Amigos da Criança, aqueles que encorajam a amamentação propiciando que as mães e seus bebês fiquem juntos imediatamente após o nascimento para o estabelecimento da amamentação. Mas a amamentação também pode ser prejudicada nestes locais. Eles priorizam práticas como “alojamento conjunto”, “contato pele a pele” e evitam o uso da fórmula, mas as enfermeiras obstetras que cuidam das mulheres não são treinadas como especialistas em lactação e não possuem expertise para resolver esses problemas. Cerca de meia dúzia de mulheres relatou-me ter recebido pouca ou nenhuma ajuda para amamentação após o parto em hospitais amigos da criança, e essa foi minha experiência pessoal por duas vezes. Alguns hospitais empregam um número suficiente de consultoras de amamentação, mas elas não trabalham em esquema de plantão e, com frequência, não há número suficiente delas para ajudar as mulheres nas necessidades do pós parto.

Quem dá conta do restante? As consultoras de amamentação em atendimento particular, que existem fora do sistema médico e cuja atuação não é coberta pelos planos de saúde. Elas sabem muito mais do que a equipe hospitalar sobre como estabelecer e corrigir a amamentação e exercem um papel vital na orientação de mulheres para a amamentação. Consultoras de amamentação podem ser verdadeiros anjos caídos do céu, mas não fazem parte da rotina de cuidado no pós parto e seu custo pode ser muito alto para muitas mulheres.

Jada Shapiro, uma consultora de amamentação e fundadora do “Boober”, um serviço de atendimento de amamentação sob demanda no Brooklyn, diz que é contactada por quatro a sete mulheres diariamente precisando de mais orientação para amamentação do que foi oferecido no hospital. “O que eu vejo é que dizem a muitas mulheres que elas não tem leite suficiente,” diz Shapiro.

Ela explica que as mulheres ficam alarmadas pelo colostro, o primeiro leite que produzem, pois ele não parece abundante. De fato, ele é tudo que um recém-nascido precisa nos primeiros dias até que a estimulação da mama se inicia e a produção de leite tenha início. Os hospitais ainda levam recém nascidos aos berçários e dão fórmula, uma prática que Shapiro reconhece interferir no estabelecimento da produção de leite. “O que é feito com as mulheres no hospital é completamente contraproducente em termos que funcionamento da amamentação,” ela diz.

Mal entendidos como estes não são novidade. A medicina tradicional historicamente deu pouca atenção à amamentação. A American College of Obstetricians and Gynecologists iniciou apenas em 2016 a recomendação formal da amamentação como parte da sua prática. Hinde ressalta que os hospitais padronizaram a avaliação e diagnóstico para os principais órgãos, mas não para as glândulas mamárias e a produção de leite. O protocolo standard para o pós parto – uma visita mais de um mês após a alta hospitalar, é insuficiente em diversos níveis e, principalmente, demasiado tardia para ajudar uma mulher a amamentar.

Embora a pesquisa sobre lactação humana e amamentação esteja longe de ser uma prioridade, muito mais foi conduzido a respeito na última década do que anteriormente, suscitando mais questões e enfatizando o que ainda não sabemos. Em 2015, por exemplo, pesquisadores identificaram que a interação específica entre o leite humano e a saliva do bebê cria peróxido de hidrogênio, que mata bactérias. Novas iniciativas, como o Rush Mothers’ Milk Club em Chicago, estão tentando aumentar o acesso à alimentação por leite humano para recém nascidos em UTIs, e perguntando se o leite humano pode ser melhor recebido por um bebê do mesmo jeito que a classificação do tipo sanguíneo. O fato de que isso nos pareça tema de ficção científica revela o quanto ainda temos a aprender.

Allison Yarrow é uma jornalista, residente do programa TED e autora do livro ainda inédito “90s Bitch: Women, Media, and The Failed Promise of Gender Equality.”
Siga @aliyarrow
Tradução: Bianca Balassiano Najm – Psicologia Perinatal e Amamentação – Bianca Balassiano 

Texto original:
https://www.washingtonpost.com/news/posteverything/wp/2018/02/21/why-do-we-understand-so-little-about-breastfeeding/?utm_term=.a8f8c60a4331

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