Quais os riscos da amamentação cruzada?

Amamentação cruzada, acontece quando você amamenta o filho de outra pessoa ou quando uma mãe dá seu filho para ser amamentado por outra mulher, isso geralmente acontece quando ela acredita ser incapaz ou estar impossibilitada de amamentar devido a problemas de saúde, e muitas vezes faz isso por não saber dos perigos que esse ato pode trazer e por achar que esse é o melhor caminho para estabelecer a sua própria amamentação. Resumindo, por falta de apoio e de informações de qualidade e por medo de seu filho adoecer ou passar fome.

Sabemos que não existe leite fraco e que desde a gravidez a mãe começa a ter leite, que é chamado colostro, Carlos González o classifica como um tipo de leite, então não há necessidade de dar o seu filho para outra mulher amamentar. Nem tão pouco acreditar que colostro não é leite e que a descida do leite precisa acontecer dentro de hora e prazo marcado, a mulher tem de 3 a 5 dias para que ocorra o aumento da quantidade de leite, conhecida como “descida do leite”, e durante esse tempo, se o bebê nasceu saudável, não será necessário nenhuma complementação com outro leite ou uso de mamadeiras ou chupetas. O que a mãe e o bebê precisam desde a primeira hora de vida é tempo e respeito por parte da equipe hospitalar. Respeitar o tempo que o bebê precisa para ir ao seio da mãe e respeito para entender o desejo da mãe de amamentar e respeito para apoiar nos momentos que a dupla precisar de ajuda.

“O colostro não é nada mais que um tipo de leite. O aumento da quantidade de leite não é brusco no terceiro dia, mas é gradual desde o primeiro dia. De qualquer maneira, se o recém nascido mama corretamente em livre demanda desde o princípio, a quantidade de leite é a necessária a cada momento.”

Carlos González.

E por que essa prática não é indicada pelo Ministério da Saúde?

Basta uma única ida a um peito que não seja o seu, para que seu filho ser exposto a várias doenças que são transmitidas através do leite materno e que podem estar em estágio de incubação e não necessariamente, serem apontadas em exames clínicos, como é o caso de:

  • Mononucleose infecciosa, Herpes simples ou Herpes zoster;
  • AIDS, Hepatite B ou C, Citomegalovírus, HTLV (Vírus linfotrófico humano de célula T);
  • Sarampo, Caxumba, Rubéola. (no caso dessas doenças e da vacinação da mãe contra essas doenças, a indicação é que a mãe da criança continue amamentando, poucas são as doenças que a amamentação não será indicada, pois a mãe a medida que amamenta produz anticorpos que protegem o bebê, mas no caso da amamentação cruzada, continua sendo proibido, pois muitas dessas doenças o contágio acontece mesmo antes de aparecer os primeiros sintomas e nesse caso, só a mãe dessa criança ao longo de toda a jornada de gravidez e amamentação consegue produzir esses anticorpos de proteção específicos para o filho dela de acordo com a gravidade e o estágio da doença, coisa que na amamentação cruzada, não acontece.)

Nesse caso, o risco do bebê contrair uma dessas doenças é ainda pior do que em um adulto, por que ele ainda não possui anticorpos e nem imunidade suficiente para se defender de doenças tão agressivas como essas citadas acima. Porém, se a mãe do bebê apresentar qualquer uma dessas doenças, ela precisa consultar um profissional de saúde que avaliará o caso e informará sobre manter a  amamentação ou não, de acordo com a gravidade de cada caso. No caso das mães, que apresentam infecções pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e vírus T-linfotrópicos humanos tipo I, a recomendação principal é não amamentar. Mas, no caso das demais doenças, será necessário uma avaliação médica, mas em grande parte dos casos, a amamentação é recomendada e nesse caso a mãe da criança produzirá anticorpos de acordo com a necessidade de proteção da criança e gravidade de sua doença. Por isso a amamentação cruzada é perigosa, por que não há esse controle ou na maioria das vezes nem a portadora sabe que possui alguma doença.

“O HIV é excretado no leite materno e o maior risco de transmissão para a criança parece ser nas primeiras semanas, mas pode ocorrer em qualquer fase do aleitamento Em um importante estudo colaborativo realizado em vários países europeus, a transmissão vertical do vírus foi de 14% nas crianças não-amamentadas e de 31% nas amamentadas, evidenciando um risco de adquirir o vírus mais de duas vezes maior entre crianças amamentadas ao seio. Todas as gestantes devem ser encorajadas a procurar acompanhamento pré-natal e realizar o teste sorológico para HIV.”

Antonio Carlos de Almeida Melo.

Como podemos ver, é primordial um acompanhamento médico no pré-natal para saber que tipo de doenças você pode ter e qual a restrição você precisa tomar com relação à amamentação. Na grande maioria dos casos, ela pode ser contra indicada ou adiada até que a mãe possa novamente oferecer o peito, mas isso depende de doença para doença e de como e quando essa doença foi tratada.

A amamentação cruzada é tão séria que foi citada numa portaria feita pelo Ministério da Saúde, este proíbe que seja realizada a amamentação cruzada dentro do alojamento conjunto.

f) proibir que as mães amamentem outros recém-nascidos que não os seus (amamentação cruzada);

MINISTÉRIO DA SAÚDE – GABINETE DO MINISTRO – PORTARIA N.° 1.016, DE 26 DE AGOSTO DE 1993 – DO 167, de 1/9/93.

E no caso de eu ser uma doadora de leite humano, corre o mesmo risco de transmitir doenças ao bebê?

Ser doadora de leite materno é diferente de amamentar o filho de outra pessoa, o segundo chama-se amamentação cruzada, a qual além de não ser recomendado pela OMS, é perigosa por não haver uma constante averiguação desse leite e da pessoa que vai amamentar, podendo entre o exame e o ato de amamentar o filho de outra pessoa, a mulher se contaminar de alguma doença, nesse intervalo.

A princípio, parece ser um lindo ato de ajuda, mas lindo mesmo é doar o seu leite de forma responsável, é oferecer ajuda a essa mãe que está com dificuldades, é ajudar a procurar uma pessoa qualificada para empoderar essa mãe de que ela é capaz de amamentar seu próprio filho. E, para ser doadora, você precisa passa por exames rotineiros, assim seu leite é avaliado cuidadosamente antes de ser pasteurizado e doado para recém nascidos que precisam dele.

Para ser doadora, primeiro você fará uma consulta no banco de leite mais próximo de você. A médica/enfermeira/ conselheira do banco de leite lhe explicará todo o processo da doação de leite e como você deve fazer a ordenha e que cuidados deve ter.

Em seguida, você fará exames de sangue para comprovar sua saúde e em seguida seu leite também passará por uma avaliação e, apenas depois disso, você se torna uma doadora. Confira mais detalhes de como proceder para ser uma doadora. E para saber onde fica o Banco de Leite mais próximo de você, basta clicar AQUI.

E nada de pensar que ser Mãe de Leite significa amamentar o filho de outra pessoa como era antigamente, hoje, ser Mãe de Leite, é ser doadora e ser uma mulher com sororidade para empoderar outras mulheres a acreditarem no poder do seu corpo e na capacidade de amamentar seu próprio filho.

Vamos doar leite materno? Vamos empoderar mais mulheres?

Referencial teórico:

DIAS REGO, José. Aleitamento Materno: uma guia para pais e familiares. São Paulo: Atheneu, 2008.

SANTIAGO, Luciano Borges. Manual de Aleitamento Materno. Barueri,SP: Manole, 2013.

GONZÁLEZ, Carlos. Manual Prático do Aleitamento Materno. São Paulo: Editora Timo, 2014.

MINISTÉRIO DA SAÚDE – GABINETE DO MINISTRO – PORTARIA N.° 1.016, DE 26 DE AGOSTO DE 1993 – DO 167, de 1/9/93. Normas do Alojamento Conjunto. Site do Ministério da Saúde. Disponível em: < http://sna.saude.gov.br/legisla/legisla/aloj_c/GM_P1016_93aloj_c.doc. > Acesso em: 23 abr, 2016.

Joel A. Lamounier1, Zeina S. Moulin2, César C. Xavier3. Jornal de Pediatria, Recomendações quanto à amamentação na vigência de infecção materna. Site Cielo. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/jped/v80n5s0/v80n5s0a10.pdf> Acesso em: 23 abr, 2016.

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Comments

August 21, 2016
[…] Falsas teorias foram inventadas para fundamentar que é hora de desmamar, a pior delas é: depois de uma certa idade (por volta de 1 ano mais ou menos) seu leite já não tem mais benefícios, é praticamente água. Não entra em minha cabeça que um alimento tão rico e poderoso pode de uma hora pra outra se transformar em “água”. Essa teoria é tão falsa quanto dizer que: “seu leite não alimenta mais seu filho, ele está apenas sugando por que gosta de ficar no c… […]

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